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Incluir é ...

Atualizado: 27 de set. de 2023


A inclusão é um verbo. O verbo incluir.


Como tantas palavras ideológicas, a inclusão nada nos acrescenta se da ideologia não se passar a práticas concretas.


Transformar a visão social de fundo de quintal, paroquial e pequenina, numa visão ampla global e inteira da humanidade. Todos e cada um com o seu lugar. Lugar esse que nos garanta acesso aos direitos básicos de saúde, educação, justiça, etc. Pode bem ser o primeiro princípio da inclusão.


Como segundo princípio há que fazer da equidade uma palavra da moda, uma buzzword, que nos permita compreender a necessidade de diferentes intervenções para tratar o que é diferente na sua génese, sem esquecer o que é igual e que nos une a todos nesta corrente humana de seres que respiram e aspiram pela felicidade.



Compreendidos os princípios, nada mais fácil do que um exercício prático. Fácil em pequena escala, simples entre pares, complicadíssimo se pensarmos nas massas ou, dito de outra forma, em grandes números.



Eis que se descobre nesta questão uma falsa razão para nada fazer. Os números não são inclusivos. Quem tem o poder de incluir são os humanos. Os humanos, esses seres estranhos que tantas vezes não sabem o que fazer e que, outras tantas vezes, fazem coisas sem as compreender, não vivem sob as regras dos grandes números. Vivem em comunidades e, ainda que inseridos em grandes complexos urbanos, têm nas suas relações sociais não mais do que 150 pessoas, em média.


A inclusão é um verbo, uma prática, pelo que só é possível pensar a inclusão em pequena escala. Resolver os problemas à medida que eles são revelados nas comunidades interativas em que cada um se move.


A inclusão não é um problema político, embora tenha raízes culturais que alimentam mitos e medos, preconceitos e desculpas esfarrapadas nas quais já nem os preconceituosos acreditam.


A inclusão é vivida no dia-a-dia de todas as pessoas que interagem com outras pessoas.

Incluir é uma questão humana, mais do que um problema. Para os problemas nem sempre temos solução imediata, mas para a questão da inclusão temos soluções até perder de vista.


Cada um faz a diferença onde está, no que faz, no que permite ao outro fazer. Incluir é permitir que o outro participe de acordo com as suas competências e aspirações.


Incluir é dar atenção e respeitar o tempo de expressão, a liberdade de ação, o poder de decisão do outro.


Podemos incluir na família que nos calhou na rifa, na família que escolhemos construir, no trabalho, nas instituições públicas que frequentamos, nos locais públicos em que relaxamos. Onde quer que esteja um ser humano em interação com outro deve sentir-se incluído, sentir-se parte integral deste projeto que é a vida humana em sociedade.



Estamos a viver uma pandemia e a repetir comportamentos de exclusão social aprendidos e não refletidos, antes da dita normalidade ter mudado. Face a isto, e já que quanto ao tempo ninguém pode dizer que não o tem, há que refletir sobre as práticas que podem ser melhoradas para que cada um de nós seja um melhor ser humano. Mas, principalmente, para que o mundo fique mais rico, pela participação ativa de tantos seres humanos que ainda são invisíveis aos olhos das pequenas comunidades em que vivem.


Que ninguém duvide que muitos deles, apesar dos reveses que a pandemia lhes provocou nas contas, se felicitou pela impossibilidade de muitos conviverem socialmente. O vírus fez de todos mais iguais, pela “ausência” de vida social. E ainda assim, a exclusão continua nas redes sociais criadas virtualmente, onde as regras são outras mas as consciências são as mesmas, logo os comportamentos repetem-se, num reflexo do mundo presencial sonhado.


É particularmente importante prestar atenção a tantos falsos perfis que vendem pessoas ideais mas irreais. A mentira da vida que se gostaria de ter e não se tem, os ciúmes, as invejas, as obsessões e muitas outras ilusões, são resultado de sentimentos de exclusão social.


Se pensarmos em todo o sofrimento que esses sentimentos desencadeiam, em todos os comportamentos erráticos que promovem, até os menos bons a matemática percebem o grande impacto que esse sofrimento tem na vida das pessoas.



Ao contrário dos vírus, doenças, acidentes e catástrofes naturais, o sofrimento causado pela exclusão social é completamente evitável.


Está nas mãos, ou talvez comece por estar primeiro nas palavras, de cada um o poder de incluir.


E talvez um dia todos possam ver a beleza que existe em cada ser humano com quem se cruzam.




Incluir é aprender a ver.



Viva Integralmente.

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